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Análise de Mercado

Receitas recorde e as ações afundaram na mesma

Esta semana, três empresas apresentaram alguns dos melhores resultados das suas histórias e foram todas castigadas em bolsa, e a razão do castigo diz muito sobre o que aí vem. Ao mesmo tempo, os acionistas de uma delas perderam 14% num dia enquanto outros investidores na mesma empresa não perderam um cêntimo. O Banco de Portugal revelou que os portugueses nunca foram tão ricos, com um detalhe no relatório que estraga a festa. E a próxima quarta-feira junta no mesmo dia quatro gigantes a abrir os livros e uma decisão da Fed, com o mercado a dar 70% de probabilidade a algo que não acontece há anos.

Tens 5 minutos? Então vem ver o que se passou.

Receitas Recorde, Ações a Afundar. O Mercado Mudou as Regras a Meio do Jogo

Durante dois anos, a fórmula funcionou sempre: apresentar crescimento, prometer mais investimento em IA, ver a ação subir. Esta semana a fórmula partiu-se. A Alphabet entregou $119,8 mil milhões de receitas, o melhor trimestre de crescimento em cinco anos, com a cloud a disparar 82%. A Tesla faturou $28,24 mil milhões com entregas recorde. E as duas foram massacradas: a Alphabet afundou 7% e a Tesla 14% na quinta-feira, arrastando o Dow para uma queda de 507 pontos e o Nasdaq para o pior dia em um mês, com a Amazon a perder $120 mil milhões de capitalização sem sequer ter apresentado números.

O crime das duas foi o mesmo: gastar. A Alphabet subiu o guidance de capex para uns colossais $195 a $205 mil milhões este ano, com aviso de que 2027 será ainda maior. A Tesla viu o capex disparar 142%, a margem operacional encolher de 4,1% para 1,4% e o free cash flow ficar negativo em $1,1 mil milhões. Musk não ajudou a acalmar ninguém: disse que a empresa deve gastar “tão depressa quanto conseguir” e comparou o momento à maior industrialização americana desde a Segunda Guerra Mundial. O mercado, que durante o pânico do Kimi K3 começou a duvidar do retorno destes cheques, ouviu os números e decidiu que ver primeiro, pagar depois.

A confirmação de que o problema é o padrão e não as empresas chegou na sexta-feira com a Intel. Resultados brutais, receitas a crescer 25%, o ritmo mais rápido em 15 anos, EPS a duplicar as estimativas. A ação chegou a disparar 13% no after hours e fechou sexta-feira a cair 7,89%, assim que a empresa confirmou que também vai aumentar o capex. Três empresas, três relatórios fortes, três quedas. O mercado deixou de premiar quem investe na IA e passou a exigir provas de que o investimento paga.

E a semana que aí vem é o julgamento completo: Microsoft, Meta, Apple e Amazon apresentam todas na quarta-feira, 29 de julho, o mesmo dia em que a Fed anuncia a decisão de juros, com as apostas numa subida em setembro nos 70%. Tudo isto com o Brent a tocar nos $100 durante a semana e uma guerra ativa no Golfo. Se os restantes gigantes confirmarem capex a subir sem retorno à vista, a correção dos chips foi só o aperitivo.

💰 Na Mesma Empresa, Uns Perderam 14%. Outros Não Perderam Nada

Já ouviste falar que os acionistas da Tesla perderam 14% num único dia esta semana, enquanto quem tinha obrigações da mesma empresa continuou a receber exatamente o que lhe foi prometido? A Alphabet caiu 7% no mesmo dia, a Amazon perdeu $120 mil milhões de capitalização sem sequer apresentar resultados, e nada disto tocou em quem está do lado credor. É a diferença estrutural entre os dois mundos: o acionista vive do humor do mercado, o obrigacionista vive de um contrato.

O que isto significa na prática ganhou uma camada extra esta semana. As gigantes tecnológicas estão a queimar dinheiro a um ritmo histórico, com a Tesla a apresentar free cash flow negativo e a Alphabet a prometer mais de $200 mil milhões de investimento, e esse dinheiro vai ter de vir de algum lado: de emissões de dívida. Ou seja, as maiores empresas do mundo vão pagar juros a quem as financiar, ao mesmo tempo que os seus acionistas engolem quedas de dois dígitos sem garantia nenhuma de recuperação. Numa semana em que o mercado provou que nem receitas recorde seguram uma ação, ter uma parte da carteira que rende por contrato e não por sentimento deixou de ser uma opção defensiva, passou a ser bom senso.

Além disso, este tipo de instrumento apenas se encontra disponível em algumas corretoras em Portugal, sendo a Freedom24 uma delas.

Caso tenhas interesse em criar uma conta:

📊 Análise Técnica – Alphabet ($GOOGL)

A semana dos resultados deixou marca no gráfico: a Alphabet abriu nos $350, chegou a tocar os $359 e fechou nos $319, uma queda semanal de 7,81% que engoliu de uma vez o trabalho de dois meses. O castigo ao capex de $205 mil milhões atirou o preço diretamente para dentro da primeira FVG, a zona de desequilíbrio deixada pelo impulso de abril, que está agora a ser testada como suporte. É a primeira visita do preço a esta zona desde que o rally do segundo trimestre a criou, e a reação aqui define o resto do verão.

A estrutura de Fibonacci traçada desde o mínimo de 2026 nos $271,54 dá o mapa completo. Acima, a recuperação tem barreiras nos $350,80 (38,2%), depois nos $375 e finalmente no máximo histórico junto aos $400, que rejeitou o preço em maio. Abaixo do nível atual existe uma segunda FVG na zona dos $305 a $315 e, sobreposta a ela, a zona OTE, a área de entrada ótima entre os $300 e os $318 onde este tipo de correções costuma encontrar comprador institucional. O preço fechou a semana precisamente à porta dessa zona.

O contexto fundamental torna o nível ainda mais relevante: a queda não veio de maus resultados, veio de bons resultados com fatura agarrada, e quarta-feira a Microsoft, a Meta e a Amazon apresentam números que vão mexer com todo o setor. Se o mercado fizer as pazes com o capex, a Alphabet está tecnicamente posicionada num desconto raro. Se a alergia continuar, a zona OTE vai ser testada a sério, e abaixo dela só existe o mínimo de 2026.


📊 Market Snapshot

🏢 Outros destaques nos mercados

  • Três bancos centrais em 48 horas: A semana que aí vem concentra as decisões da Fed, do Banco de Inglaterra e do Banco do Japão. A Fed decide quarta-feira, 29 de julho, e deve manter os juros nos 3,50% a 3,75%, mas com as apostas numa subida em setembro nos 70%, cada palavra de Kevin Warsh na conferência de imprensa vale ouro. O Banco de Inglaterra anuncia quinta-feira, 30, já sob o novo governo de Andy Burnham, e o Banco do Japão fecha a semana na sexta-feira, 31, depois de a última decisão ter sido aprovada com dois dissidentes a pedir subidas. Três decisões, três economias, e um mercado a tentar adivinhar quem pisca primeiro.
  • PIB e a inflação favorita da Fed no mesmo dia: Quinta-feira, 30 de julho, sai tudo ao mesmo tempo: a primeira estimativa do PIB americano do segundo trimestre, com o mercado à espera de uma aceleração para 2,3% anualizados, e o PCE, a medida de inflação que a Fed realmente segue, com o índice core a vir de uns desconfortáveis 3,4% homólogos. O detalhe saboroso é o timing: os dados saem na manhã seguinte à decisão da Fed. Se a inflação surpreender em alta, Warsh vai parecer desatualizado com menos de 24 horas de mandato da decisão. O mercado chama-lhe azar de calendário, a Fed chama-lhe quinta-feira.

📑 Earnings das empresas

Resultados Divulgados:

  • Alphabet ($GOOGL): Receitas recorde de $119,8 mil milhões superam estimativas em mais de $3 mil milhões, com a cloud a disparar 82% e o search a crescer 17%. Nada disto interessou ao mercado: a empresa subiu o guidance de capex para $195 a $205 mil milhões e avisou que 2027 será ainda maior, e a ação afundou 7% na quinta-feira. O melhor trimestre de receitas em cinco anos, castigado pela fatura que vem agarrada.
  • Tesla ($TSLA): Receitas de $28,24 mil milhões (+26%) superam estimativas em quase $2,7 mil milhões, com entregas recorde. Mas o EPS de $0,33 falhou os $0,49 esperados, um miss de 32%, a margem operacional colapsou de 4,1% para 1,4% e o free cash flow ficou negativo em $1,1 mil milhões, com o capex a disparar 142%. A ação afundou 14% na quinta-feira, o pior dia do ano.
  • Intel ($INTC): Receitas de $16,13 mil milhões (+25%, o crescimento mais rápido em 15 anos) superam estimativas em $1,8 mil milhões. EPS ajustado de $0,42 duplica as previsões de $0,21, uma surpresa de +100%. A ação chegou a disparar mais de 13% no after hours e acabou a cair 7,89% na sexta-feira, quando o mercado fez as contas ao aumento do capex para mais de $20 mil milhões e aos prejuízos contabilísticos que os números ajustados escondem. Nem uma surpresa de 100% sobrevive à alergia do momento: gastar muito.

Resultados a serem divulgados:

  • Coca-Cola ($KO): Resultados na terça-feira, 28 de julho, antes da abertura. Receitas estimadas de $13,17 mil milhões e EPS de $0,93. A ação negoceia nos $82, perto de máximos, capitalização de $353,88 mil milhões. Num mercado a tremer com o capex da IA, o dividendo aristocrata volta a estar na moda.
  • Visa ($V): Resultados na terça-feira, 28 de julho, após o fecho. Receitas estimadas de $11,38 mil milhões e EPS de $3,23. A ação negoceia nos $355, capitalização de $670,18 mil milhões. O melhor termómetro do consumo americano, na semana em que a Fed decide juros.
  • Microsoft ($MSFT): Resultados na quarta-feira, 29 de julho, após o fecho. Receitas estimadas de $87,62 mil milhões e EPS de $4,24. A ação negoceia nos $381, a cair 18% no ano e no múltiplo mais barato desde 2023, com o Azure a crescer 40%. Depois do castigo à Alphabet, o mercado vai medir cada palavra sobre capex.
  • Meta Platforms ($META): Resultados na quarta-feira, 29 de julho, após o fecho. Receitas estimadas de $60,21 mil milhões e EPS de $7,20. A ação negoceia nos $595, capitalização de $1,51 biliões. A pergunta é a mesma para todos: quanto vai custar a corrida à IA este ano.
  • Apple ($AAPL): Resultados na quarta-feira, 29 de julho, após o fecho. Receitas estimadas de $108,85 mil milhões e EPS de $1,89. A ação negoceia nos $333, depois de saltar 3,5% na sexta-feira, capitalização de $4,89 biliões, a maior do mundo. A única da Big Tech que não precisa de justificar capex, precisa de justificar o iPhone.
  • Amazon ($AMZN): Resultados na quarta-feira, 29 de julho, após o fecho. Receitas estimadas de $196,51 mil milhões e EPS de $1,81. A ação negoceia nos $232, capitalização de $2,5 biliões, depois de perder $120 mil milhões por arrasto da Alphabet. Com guidance de capex acima de $200 mil milhões, é a próxima na cadeira do dentista.

📈 Gráfico do dia

🌍 Os Portugueses Duplicaram a Fortuna. Mas Metade Continua Parada

As famílias portuguesas nunca foram tão ricas em termos financeiros. Segundo o retrato apresentado pelo Banco de Portugal, o património financeiro líquido mais que duplicou em vinte anos, passando de 172 mil milhões de euros em 2005 para 402 mil milhões em 2025, o equivalente a saltar de 108% para 131% do PIB. Ao mesmo tempo, a dívida encolheu: os passivos caíram de 84% para 63% do PIB, e se em 2005 os ativos valiam 2,2 vezes as dívidas, hoje valem cerca de três vezes. Menos endividados e com mais património, o balanço das famílias está no melhor ponto em duas décadas.

A composição também está a mudar, ainda que devagar. O próprio Banco de Portugal destaca que as participações no capital de empresas e os fundos de investimento assumem hoje uma importância maior, com uma parcela crescente do património aplicada em instrumentos expostos à evolução dos mercados. Foi precisamente essa fatia que ajudou a “enriquecer”: ao contrário dos depósitos, estes ativos valorizam ao longo do tempo, e os últimos anos de mercados em alta fizeram a diferença no acumulado.

Mas o velho hábito resiste: 44% de todo o património financeiro continua estacionado em depósitos e certificados, com os depósitos a renovar recordes acima dos 203 mil milhões de euros. Quase metade da riqueza financeira do país está em instrumentos de curto prazo que mal acompanham a inflação, num momento em que o resto do mundo redescobre o rendimento. A boa notícia é que a diversificação começou. A má é o ritmo a que está a acontecer.

💰 Ação do dia

(Calma, apenas para colocar na watchlist!)

💎Patrocinador

A Freedom24 é uma plataforma que permite aceder a ações, ETFs, Obrigações e outros instrumentos financeiros em bolsas como a NASDAQ e a NYSE.

Há várias ferramentas para utilizar nos gráficos, informações de mercado e dados fundamentais das empresas.

No botão abaixo permite aceder a uma campanha limitada até dia 31/08/2026:

Obrigado!🙏

Quero agradecer por estares nesse lado a acompanhar o meu trabalho.

Deste lado cá estarei para te apoiar com os meus estudos!

Até uma próxima!

Gustavo Araújo

Disclaimer 📌

O conteúdo partilhado serve apenas para fins informativos e educacionais. NÃO representa qualquer tipo de aconselhamento financeiro implícito ou explícito, NEM recomendação de investimento.

😆 Para rir um pouco…

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