A economia europeia tem sido comparada a um comboio que aguarda na estação, acumulando energia para uma viagem há muito adiada, mas que promete um ritmo modesto quando finalmente partir. Nos últimos anos, os mercados acionistas europeus têm ficado atrás dos norte-americanos, registando um desempenho inferior em 12 dos últimos 15 anos.
No entanto, este crescimento lento pode tornar-se uma vantagem estratégica para os investidores. A Europa não sofre dos excessos imobiliários da China nem enfrenta as elevadas avaliações de mercado que ameaçam os EUA. A combinação de um euro fraco, política monetária expansionista, elevada taxa de poupança e margem fiscal pode impulsionar o crescimento económico e aumentar os retornos das ações europeias em dólares.
Além disso, os dividendos atrativos tornam os mercados europeus interessantes para investidores que procuram rendimento. A pressão política interna e a ameaça de tarifas dos EUA podem incentivar medidas mais ousadas, como desregulamentação e estímulos fiscais, gerando um novo dinamismo económico.
Economia Europeia: Lenta Mas Estável
Os números mostram uma economia europeia em crescimento lento, mas sem sinais de crise iminente. O PIB real da zona euro manteve-se inalterado no quarto trimestre de 2024, crescendo apenas 0,9% em termos anuais, após um fraco avanço de 0,1% em 2023. Com baixo crescimento populacional, este ritmo não implica perda de qualidade de vida, mas também não sinaliza grande dinamismo.
No mercado de trabalho, a taxa de desemprego da zona euro atingiu 6,3% em dezembro de 2024, apenas 0,1% acima do menor nível registado neste século. O emprego cresceu 1,0% no terceiro trimestre de 2024 face ao ano anterior, com os salários a aumentarem 4,4% no mesmo período, abaixo dos 5,1% registados no ano anterior. A desvalorização recente do euro não deverá comprometer a competitividade europeia.
A inflação apresenta uma trajetória descendente, com o HCPI a subir 2,4% em dezembro de 2024, muito abaixo do pico de 10,6% em outubro de 2022. Este declínio deverá também moderar o crescimento salarial.
A nível fiscal, a zona euro apresenta um cenário mais favorável do que os EUA, Japão, China ou Reino Unido. Segundo o FMI, a dívida pública bruta da zona euro representava 73,9% do PIB em 2024, abaixo dos 76,4% registados há dez anos. Em contraste, os EUA, o Reino Unido, o Japão e a China registaram um aumento acentuado deste rácio na última década.
A política monetária europeia também se tornou mais acomodativa. O Banco Central Europeu reduziu a taxa de depósito para 2,75%, abaixo do pico de 4,0% registado entre 2023 e 2024. Os mercados atualmente antecipam três cortes adicionais em 2025, reduzindo a taxa para 2,0% – abaixo da inflação atual. Nos EUA, o cenário é diferente, com previsões de apenas um corte, deixando a Fed Funds Rate entre 4,00% e 4,25% até ao final do ano.
Estas taxas mais baixas podem impulsionar o crescimento europeu, dado que as empresas na Europa dependem mais do financiamento bancário do que nos EUA, e uma maior percentagem de hipotecas tem taxas variáveis.
Oportunidades e Desafios Regionais
Embora o crescimento da zona euro seja de 0,9% em 2024, existem variações significativas entre os países:
- Alemanha: Recuo de 0,2% no PIB, devido a altos custos energéticos e fraca procura da China.
- França: Crescimento de 0,7%, mas com dificuldades devido a elevada dívida pública e desafios políticos.
- Itália: Apenas 0,5% de crescimento, prejudicada por envelhecimento populacional e alta dívida.
- Península Ibérica: Espanha (3,5%) e Portugal (2,7%) beneficiaram do turismo e recuperação pós-pandemia.
O turismo impulsionou o PIB da Península Ibérica, mas trouxe desafios como a especulação imobiliária por estrangeiros. Já a Grécia e a Irlanda continuam a crescer, mas enfrentam problemas habitacionais como legado da crise da dívida europeia.
A Europa Como Alternativa de Investimento
A história da economia europeia não sugere um crescimento acelerado, mas também não aponta para uma recessão iminente. A ausência de uma bolha especulativa recente pode protegê-la de quedas abruptas nos mercados.
O principal argumento a favor das ações europeias é o seu valor atrativo. No final de janeiro de 2025, o índice MSCI Europe ex-UK apresentava um P/E Ratio de 14,7x, contra 21,8x no S&P500, um desconto duas vezes superior à média dos últimos 20 anos. Além disso, a taxa de dividendos era de 3,3%, bem acima dos 1,3% do S&P500.
Este desconto reflete, em parte, a menor presença de empresas tecnológicas nas bolsas europeias em comparação com os EUA. No entanto, todos os 10 setores do MSCI Europe têm P/E Ratios inferiores aos seus equivalentes no S&P500.
Adicionalmente, crises anteriores mostram que mercados em queda atingem com mais força os setores que lideraram a última alta. A bolha tecnológica de 2000 impactou fortemente as ações tecnológicas, assim como a crise financeira de 2008 atingiu mais os setores bancário e imobiliário. Atualmente, se houver uma bolha nos mercados, esta estará provavelmente concentrada nas avaliações exageradas das tecnológicas norte-americanas, tornando as ações europeias menos vulneráveis a correções severas.
Conclusão
O mercado acionista europeu pode não prometer retornos espetaculares, mas oferece uma oportunidade de investimento estável e resistente à volatilidade global. A Europa está posicionada entre o risco de bolha nos EUA e as incertezas da economia chinesa, tornando-se uma opção prudente para diversificação.
Com um euro fraco, taxas de juro mais baixas e um ambiente de menor risco financeiro, as ações europeias oferecem uma alternativa viável para investidores que procuram estabilidade e rendimento. O crescimento pode ser lento, mas será sólido – e pode ser um estabilizador essencial para carteiras excessivamente expostas às grandes tecnológicas norte-americanas.
João Feliciano Martins
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